quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Medindo as funções cognitivas


O desenrolar das atividades escolares é uma boa oportunidade para os pais observarem como está o rendimento escolar de suas crianças e adolescentes. E, às vezes, um olhar mais atento pode identificar falta de atenção, desânimo e dificuldades de aprendizado. Para esses casos, a neuropsicologia - um ramo da neurociência que estuda as relações entre o cérebro, comportamento e funções mentais - desenvolveu um teste conhecido por Exame Neuropsicológico (ENP), capaz de fornecer um verdadeiro raio X de todas as funções cognitivas. "O exame avalia funções mentais, como a memória, a linguagem, a eficiência intelectual e também a atenção, além da função executiva, que são exatamente as habilidades de julgamento e de planejamento para a resolução de problemas", apresenta Éverton Duarte, professor de Neuropsicologia e Psicopatologia do Centro Universitário São Camilo (SP).

MEDINDO AS FUNÇÕES COGNITIVAS
A avaliação neuropsicológica é formada por uma combinação de vários tipos de testes que abrangem diferentes funções. Desses, um exame usado na faixa etária de 6 a 16 anos é a Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC III).

Escala não verbal WISC III
Completar Figuras: avalia percepção e abstração visual.
Arranjo de Figuras: avalia planejamento, percepção e entendimento de relações causa-efeito.
Cubos: avalia a visão construtiva e a percepção visual.
Código: avalia percepção visual e destreza viso-motora.
Armar objetos: avalia visão construtiva e percepção visual.

Escala verbal WISC III
Conhecimento prático e julgamento social: avalia compreensão.
Conhecimentos gerais e eficiência de memória: avalia a informação.
Aritmética: visa observar o raciocínio aritmético e concentração.
Semelhanças: tem como objetivo avaliar abstração verbal.
Dígitos: a meta é analisar a atenção e a memória operacional.
Vocabulário: observa e avalia o domínio da língua.


Uso complementar
O ENP pode colaborar com o diagnóstico de doenças que afetam o funcionamento do cérebro, tais como epilepsia, infecções, lesões, anemia falciforme, entre outras. Além disso, ele também fornece informações que ajudam a identifi car outro distúrbio recorrente em crianças: o Transtorno de Défi cit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

O TDAH pode ser dividido em três subgrupos: o predominantemente hiperativo, o predominantemente desatento (em que não há inquietação), e o combinado, onde a criança possui ambos os sintomas. Em comum, todos eles afetam de modo negativo o desempenho dos pequenos estudantes, que não conseguem fi xar as matérias ensinadas pelos professores. "A atenção é a capacidade de concentração do indivíduo e um processo cognitivo que utilizamos o tempo todo", resume Duarte.

Mas é justamente para crianças e adolescentes que possuem outras difi culdades de aprendizado que a avaliação neuropsicológica pode ser uma mão na roda. Há casos em que os pequenos estudantes apresentam a predominância de uma função sobre as outras, o que gera difi culdades na escola. "Quando a criança apresenta problemas, precisamos entender o que acontece cognitivamente em seu processo de aprender. Se existir a predominância do aspecto verbal ou de execução, por exemplo, haverá uma descompensação na sua forma de aprender", resume a neuropsicóloga Luciana Rizo (RJ).


Qualidade de vida
Apesar de ainda ser vista com preconceito por muitos pais e pedagogos, o ENP auxilia de forma prática as crianças com dificuldade de aprendizado. Isso porque ele fornece informações sobre os pontos fortes e fracos de cada estudante, proporcionando que pais e professores trabalhem melhor com esse aluno dentro e fora da sala de aula. "A partir do exame, é possível traçar um perfil cognitivo da criança, observando suas potencialidades e pontos a serem desenvolvidos. Assim, podemos ajudar a minimizar possíveis problemas do desenvolvimento que a criança poderia apresentar com o tempo, melhorando sua qualidade de vida", resume Luciana.


MITOS E VERDADES SOBRE O QI
Desenvolvido pelo psicólogo francês Alfred Binet, em 1905, o chamado Quociente de Inteligência (QI) é uma medida obtida com base em testes com dificuldade progressiva, utilizados para avaliar a capacidade cognitiva global. Seu uso, entretanto, não deve ser sinônimo de superioridade ou inferioridade intelectual. "Hoje sabemos que existem as oito inteligências múltiplas de H. Gardner, que compreendem linguagem matemática, português, espacial, sinestésica, musical, intrapessoal, interpessoal e ecológica. Vale ainda ressaltar que a avaliação neuropsicológica não deve ser utilizada para medir QI", acrescenta Luciana Rizo. Segundo ainda Leonard Verea, médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Milão (Itália), crianças com QI baixo não são necessariamente pouco inteligentes. "Elas precisam ser treinadas e estimuladas", completa.

A escolha dos testes que mais se adaptam às necessidades do paciente é feita pelo neuropsicólogo após a primeira entrevista


Investigação minuciosa
Cada função cognitiva pode ser avaliada por inúmeros tipos de testes neuropsicológicos. Aqueles que medem a atenção, por exemplo, podem variar da repetição de dígitos numéricos em ordens diferentes à identifi cação de símbolos em um determinado limite de tempo. A escolha dos testes que mais se adaptam às necessidades do paciente é feita pelo neuropsicólogo após a primeira entrevista. Por esse motivo, os ENPs diferem em termos de estrutura para cada paciente.

Em comum, todos os testes são realizados no período da manhã ou à tarde, momentos do dia em que a criança ou adolescente já estão acostumados a desenvolver atividades na escola. Sua fi nalização pode exigir de seis a oito sessões, dependendo do ritmo e das difi culdades de cada paciente. "A maioria dos testes importantes para o ENP pode ser realizada em crianças a partir dos 6 anos de idade. Dessa idade em diante, qualquer pessoa que perceba desordens de percepção, memória, linguagem e ações pode ser submetida a ele", completa Carla Furlanetto, psicóloga da Clínica Rotí (SP).


Resultados e reabilitação
Mas o processo de avaliação neuropsicológica vai muito além da aplicação da bateria de testes. É necessário, por exemplo, ampla investigação sobre o contexto vivido pela criança e sua situação emocional antes de se iniciar o processo. "Além disso, é necessária uma interpretação minuciosa dos resultados. Eles apresentam quais as áreas cerebrais afetadas e quais aptidões e habilidades encontram-se abaixo do esperado para aquele perfi l do paciente", destaca a especialista Carla.

Todas as conclusões e as recomendações dadas pelo neuropsicólogo são discutidas com os pais em uma sessão à parte, que geralmente dura uma hora. Esse momento é importante para ajudar na compreensão do quadro e defi nir os rumos da reabilitação. "Não existe resultado negativo. A descoberta de um problema é o primeiro passo para que o tratamento estimule uma melhora", pondera Luciana.

Uma vez identifi cada a disfunção, é possível estabelecer a extensão do problema e sua estimativa de evolução. Com esses dados em mãos, o passo seguinte é determinar como será o processo de reabilitação, que também varia de acordo com o caso. "O objetivo da reabilitação é trabalhar todas as necessidades de desenvolvimento apontadas no exame. É importante saber que seus exercícios são específi cos para cada função. Por exemplo, para casos de reforços de atenção, são utilizados programas de computador que ajudam nesse processo", explica a neuropsicóloga Luciana. Graças à plasticidade dos neurônios, os exercícios feitos na reabilitação conseguem promover mudanças signifi cativas nas estruturas cerebrais da maioria dos pacientes. Para completar, o tratamento feito precocemente ainda tem a vantagem de evitar que as difi culdades evoluam para quadros mais graves no futuro, o que deve ser evitado.



FIQUE ATENTO
Os processos de atenção são o resultado da interação de várias áreas cerebrais, mas é no CÓRTEX PRÉ- FRONTAL que se situa sua sede. E ele está conectado com todas as unidades funcionais do cérebro e com as redes neurais que os unem. Já o O SISTEMA LÍMBICO, localizado no lobo temporal, também tem papel importante nos aspectos da atenção. Ele faz a seleção dos estímulos e para que ocorra uma atenção adequada, é necessário interesse afetivo, atração e motivação. Essa área também é responsável pelas emoções.

EXAME E SUAS ETAPAS
­ETAPA 1: entrevista com os responsáveis pela criança e avaliação das queixas. Exige uma ou duas sessões. ­
ETAPA 2: geralmente ocorre a seleção dos testes que serão utilizados no exame pelo neuropsicólogo. ­
ETAPA 3: aplicação dos testes em seis a oito sessões. ­
ETAPA 4: correção e elaboração do laudo pelo neuropsicólogo. Essa fase exige o período de tempo de uma ou duas semanas.
ETAPA 5: momento em que ocorre a devolução do laudo aos pais, e também a explicação dos resultados obtidos.



1 comentários:

Unknown disse...

Ótima essa informação!
Parabéns!

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